ecomafias nas rotas do Índico


Fluente em arábico, Ilaria Alpi havia construído a sua reputação de jornalista batendo ruas, picadas e desertos da Somália - e muitos corredores em Itália. Para confirmar fontes, pesquisar traços e rotas, conhecer as comunidades em reportagem. Incluindo a bandidagem.


Ilaria reportava a Somália desde 1992, país que visitou 4 vezes, e quando a 12 de Março 1994 desembarcou em Mogadishu, foi Miran Hrovatin quem se lhe juntou como cameraman. Para Miran, um freelance de Trieste, este era o seu primeiro job na Somália.


Oficialmente, nesta reportagem para a RAI 3 Ilaria Alpi cobriria a retirada dos boinas azuis italianos que na Somália participavam na operação UNISOM. E para além de ela, uma imensa catadupa de jornalistas e estações de televisão já ali salivavam com o escândalo mediático da época - a violência bárbara de alguns militares italianos denunciada pela população somali.


Tal como os outros, Ilaria cobria o Mogadishu do dia. Mas ela podia ir mais longe porque já então seguia o rasto de criminosas serpentes. E de facto, uma caudalosa torrente de provas viria a estabelecer que Ilaria seguia a pista de um hediondo tráfico trocando armas por lixos.


Um tráfico que já em finais de 1992 a imprensa internacional havia começado a reportar, e de onde ressaltavam obscuras empresas e instituições europeias. Um tráfico que contrabandeava armas do ex-Pacto de Varsóvia ao preço de despejos de tóxicos e escórias radioactivas.

E no caso da Somália, os senhores da guerra haviam aceite vender um país. Por um punhado de colts e 10 paus de amendoím, os donos da terra convertiam-na num gigantesco depósito de lixos internacionais.

Lixos a serem depositados em terra, ou descarregados na costa somali do Índico.


Dias depois da chegada a Mogadishu, e contra a corrente do jornalismo grand hotel, Ilaria e Mirian decidiram partir para Bosaso - uma pequena vila portuária no norte somali onde se sabia que, por entre casos de piratarias várias, as milícias locais haviam apreendido um navio muito particular - o Faarax Oomar.

Um navio oferecido pela cooperação italiana que oficialmente se ocuparia de pesca e transporte de peixe. Mas a Ilaria, ao invés de peixe a frota italo-somali Shifco cheirava a armas e resíduos tóxicos.


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Ilaria Alpi


uma jornalista italiana

que aos 32 anos foi assassinada em Mogadishu

quando trabalhava para a TV RAI 3


e para além de beleza

de Ilaria os colegas recordam o rigor e tenacidade jornalística

E que o microfone era a sua arma

XITIZAP # 1   20/03/2003