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Recorde-se agora que em Fevereiro 1996, era esta própria International Waste Group (IWG) quem havia obtido em Moçambique autorizações do MICOA (Ministério da Coordenação Ambiental), do MPF (Ministério do Plano e Finanças) e do CPI (Centro de Promoção de Investimento) para um projecto dito de Recuperação de Lixo.

E foram certamente estas autorizações que permitiram à IWG obter rapidamente um alvará argentino como armazenista e exportador de resíduos perigosos - e em tempo recorde.


Com os corredores da argentina Secretaría de Medio Ambiente franqueados pelo filho de Carlos Menem, a 25 Setembro 1996 o arquitecto António Aguirre obtinha o alvará da IWG - sob o confidencial expediente 1898/96. E no processo da transa, a Rua Almirante Brown, 927, Moron, Argentina, era designada como sede da International Waste Group. Uma morada de negócios partilhada com crematórios privados desta mesma rede.


Oficialmente, a racional do negócio em Moçambique seria a recolha e tratamento de lixos. E se a merda de cá não chegasse para rentabilizar fornos incineradores, o que havia a fazer era importá-la - isto porque segundo eles, o importante era a escala das suas transas.


Por intrigante coincidência, começava em 10 Maio 1996 e agora em Moçambique, uma frenética e globalizante campanha de marketing com vista à celebração de acordos bilaterais para importação de lixos - incluindo contactos oficiais com representações locais de Itália, Argentina e Espanha.


Entretanto, de acordo com Scalia et al., ao projecto Recuperação de Lixo era atribuída uma concessão de 150 hectares em Boane, junto a uma antiga zona extractiva. Segundo os traficantes, a natureza rochosa dos solos proporcionava a instalação de um intoxicante incinerador - e respectiva mega-lixeira.


As investigações sobre o tráfico de lixos prosseguiam por todos os lados e em Outubro 2001 o argentino Canal 13 (Telenoche Investiga) revelava novos detalhes do puzzle das ecomafias.

Perante uma camera oculta do Telenoche Investiga, três mosqueteiros do crime argentino confessavam a sua participação em diversas golpadas, incluindo o tráfico de lixo internacional. E um dos entrevistados não era outro senão o arqui-traficante António Aguirre, da International Waste Group - sócio de crematórios em Morón e San Isidro, para além das empresas CETRA e Ecolink.


Sem se aperceber que estava a ser filmado, este arquitecto da International Waste Group admitia que em Boane não se previa nada de extraordinário - apenas um ajuste das terras, dos ares e dos camponeses locais aos costumes indígenas - dizia ele, o traficante.

As imagens do Canal 13 são entretanto apimentadas com referencias a Adam Kashoggi (Irangate), e a bacanais em Marbella promovidos por um elusivo traficante sírio - Monser Al Kassar, de seu nome. E por bizarra ironia, até mesmo um tal Bin Laden é por eles referenciado como parte do negócio dos lixos.

Nesta transa, o traficante sírio encarregar-se-ia de gerir os navios que, sulcando os portos do mundo, baldeariam em Maputo resíduos tóxicos e escória radioactiva com destino a Boane. E estranhamente, o Malawi começava a ser referido nos corredores da malandragem como um outro potencial destino.


Mas bizarrices à parte, o importante era que as imagens permitiam melhor perceber o modus operandi de um tráfico hediondo - armas, drogas, dinheiro sujo e lixos tóxicos. E no caso do puzzle dos tóxicos, a International Waste Management  (IWG) surgia como pivot da operação.


Mais tarde, e com a credibilidade que merecerão suas palavras, o arqui-traficante Aguirre admitiu nunca ter desembolsado os 3 milhões USD previstos no contrato que a IWG havia estabelecido com a parceria moçambicana - e que por isso se teria esfumado o contrato.

Porém, alguns cínicos presumem que, provavelmente, esta Ecomafia se julgava no direito de beneficiar dos fundos de ajuda internacional a Moçambique - para que se desse escala e eficiência à incineração.

E que, por alguma razão, não os conseguiu.


Mas talvez Boane não tivesse sido o único caso de comércio de perigosos tóxicos.

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