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Em Bosaso, Ilaria entrevista a tripulação do navio (oficiais italianos e marinheiros somali) e embora a kassete da entrevista aos oficiais registe notórios apagões, percebe-se que Ilaria se interessava muitíssimo pelo conteúdo da carga. Ilaria e Miran entrevistam ainda Ali Mussa Boqor - King Kong, de seu nome de guerra. E para que este ras se relaxasse o mais possível durante a entrevista, Ilaria pede ao operador que desligue a camera - Miran desvia a objectiva, mas continua a registar o som. E é nesta entrevista que King Kong lhes confirma que, segundo declarações dos seus piratas, ao invés de pesca, Faarax Oomar era mais um dos navios do tráfico internacional de tudo o que era lixo - armas, resíduos tóxicos, escórias radioactivos. A 20 de Março 1994 Ilaria e Miran regressam a Mogadishu onde desembarcam por volta das 12:30. Ilaria telefona imediatamente para Roma pedindo tempo de satélite para que, por volta das 19, pudesse enviar material televisivo - um material interessante sobre o qual falariam depois. E segundo conta o seu produtor RAI 3, naquele momento Ilaria estaria ansiosamente apressada em busca de uma confirmação. E por isso urgia que ela se deslocasse imediatamente à zona norte de Mogadishu - uma zona controlada pelo contigente italiano UNISOM. Carinhosa, Ilaria soube ainda encontrar tempo para telefonar a sua mãe ... por uma última vez. Acompanhados por dois somalis - um guarda-costas e um motorista - Ilaria e Miran saem do seu hotel, o Sahafi, por volta das 14:45 - e partem em direcção ao Amana Hotel onde permanecem poucos minutos. Regressados à viatura, e mal haviam começado a descer a ladeira do Amana, são emboscados por 7 gangsters que já há algum tempo haviam estacionado um Land Rover do outro lado da rua. Bloqueados e desprotegidos, Ilaria Alpi e Miran Hrovatin foram então cobardemente assassinados. Pouco passava das três da tarde de 20 de Março 1994. Alertados pelos tiros, dois freelance cameraman correm para o local e registam os momentos finais da emboscada - e notam que o motorista e o guarda-costas não sofreram um arranhão. E é Michael Maren, um americano trabalhando para a USAid, quem reporta ter visto a kassete integral do operador da ABC News - umas horas depois da emboscada, no hotel Sahafi e a convite de Carlos Mavroleon, o operador de imagem grego. Para além da transferencia dos corpos de Ilaria e Miran para um Toyota Land Cruiser que foi imediatamente identificado, Michael Maren reporta a recolha de dois walkie-talkies da viatura onde seguiam os jornalistas - e a apropriação do bloco de reportagem de Ilaria. Incidentalmente, poucos meses depois o freelance grego da ABC News foi encontrado morto numa pousada de Kabul. E Vittorio Lenzi, o outro cameraman, morreria vítima de um inexplicado acidente de viação, perto de Lugano. Nesses entretantos, as duas kassetes de video integral desapareciam, misteriosamente. Mas se eram certamente somalis os 7 executores, como o revelam os minutos de imagem TVs, de imediato se ergueu uma imensa comunidade, clamando e os mandantes quem são ? Dois dias depois do duplo assassinato em Mogadishu, a Procuradoria de Roma decidia abrir um inquérito e já a 4 de Julho 1994, Giorgio e Luciana Alpi, os pais de Ilaria, falavam em sumária execução. Na altura, o pai faz recordar a entrevista ao ras de Bosaso, e refere-se ao desaparecimento do bloco de reportagem da jornalista. E é em Janeiro 1995, aquando de um inquérito aos podres da cooperação italiana com os países sub-desenvolvidos, que a Camera dei Deputati levanta o caso Ilaria Alpi - a propósito de uma presumível relação entre os tráficos e a frota pesqueira italo-somali Shifco. Um corajoso gesto de protagonismo deste outro poder de estado porque afinal, e como parecia ser costume em Itália, o poder judicial continuava a perder-se em ardilosos labirintos. Dos quais o mais grosseiro seria o modo como Ilaria e Miran teriam sido executados. De facto, e ao contrário do que os oficiais forenses pretendiam registar, Ilaria e Miran não haviam sido mortos em fogo cruzado de AKMs - numa vulgar emboscada do Mogadishu de então. Isto porque que a 25 Junho 1996 a Procuradoria de Roma havia ordenado uma segunda perícia balística, e os resultados já induziam balas disparadas a curta distancia. Uma conclusão a que chegaria também uma outra perícia médica de 18 Novembro 1997 - efectuada por uma equipa de três médicos escolhidos pelos familiares de Ilaria, e outros três nomeados pela itália das autoridades. |

